Causa animal: o ponto em comum

In Meio Ambiente
Várias pessoas ajudam animais.

Para eles o “tadinho, tomara que alguém ajude ele” não basta. O apoio à causa faz parte das suas rotinas diárias. 

Hellen Piris 

Um deles compra coxinha de um real na padaria da esquina e uma garrafinha de Conversão de abacaxi para o café da manhã, a outra prefere uma xícara de porcelana branca cheia de leite vegetal, granola e uma banana. Aos sábados à noite ele finaliza a atividade que o professor deixou na quinta, já ela, opta por praticar Muay Thai, o esporte que ama. Durante as tardes, se houver um tempinho vago, ele dá uma de Uber, enquanto isso, ela vai montando os colares e pulseiras de missanga da sua loja online “Aloha”. Wallace e Larissa têm rotinas distintas, são de mundos diferentes, mas quando o assunto é causa animal, aí a coisa bate. 

As quartas na feira e os sábados na rua de terra 

Wallace Pala Pala é carioca, tem 34 anos e cursa o quarto semestre de Serviço Social. O seu envolvimento com a causa animal começou em 2018 enquanto apoiava o projeto “Sopão Solidario”, que consiste em preparar sopas quentinhas para os moradores de rua. Em pouco tempo percebeu que algumas das pessoas que recebiam as refeições tinham um cachorro ou gato com elas, e para oferecer o serviço completo, Wallace buscou a forma de conseguir ração para as mascotes também. Ele teve a ideia de desenvolver bolsas sustentáveis, aquelas usadas para as compras, então pegou uma bolsa de ração, cortou, fez umas costuras e postou o produto no seu Facebook. “Não vai dar em nada” pensou ele, mas deu. E deu tanto, que a sua iniciativa foi capa da revista da região e a demanda das bolsas foi aumentando. 

A partir desse ponto, a sua relação com a causa animal só foi crescendo. Ele criou o projeto “SustentaCão” no mesmo ano para atender a grande demanda de animais abandonados. Cada bichinho que ele encontra em situação de perigo, é recolhido, tratado e levado ao “curral de cachorros”, que consiste em um espaço cercado onde são colocados os animaizinhos para a doação. O curral de ferro pintado de branco e decorado com algumas flores de plástico, fica em frente à feira de frutas do bairro que acontece cada quarta. Wallace passa toda a manhã, e se é preciso parte da tarde, para oferecer os animaizinhos e preencher os documentos da adoção necessários de quem quer adotar.

 Larissa Almeida tem 21, mora na cidade de Mogi Mirim,  no interior de São Paulo e está no terceiro semestre de Medicina Veterinária. Ela ama bichos desde que têm memória, e dedica boa parte da sua rotina diária à causa deles. Com o seu projeto “Sem Raça” que conta com 70 voluntários, ela já resgatou muitos animais que se encontravam em perigo ou risco de morte. Na lista dos resgatados, há cachorros, gatos, papagaios, corujas e até uma capivara.   “Já nem lembro quantos resgatei”, assegura ela entre risos, “mas foram muitos, muitos mesmo.” 

Ela também é voluntária na “Kamael Associação Protetora dos Animais”, a Kapa, localizada em Mogi Guaçu, perto da cidade de Larissa. A função dela é passear com os cachorros da organização cada sábado das 8h a 12h, junto a outras sete meninas que também fazem esse trabalho voluntariamente. “Na Kapa, eles recebem abrigo, alimentação e atendimento do veterinário, mas poucos brincam e interagem com eles”, revela Larissa. O percurso é sempre o mesmo, uma rua de terra vermelha rodeada de mato, perto do local da Kapa. Durante as caminhadas, os cães desafiam a força dos braços das meninas, e as puxam enquanto celebram a sua breve mas tão esperada liberdade de quatro horas.

O governo nessa história 

O órgão do poder executivo responsável por velar pelos animais abandonados, é o Ministério do Meio Ambiente, mas se quiser pesquisar sobre as ações desenvolvidas por eles a favor dos animais abandonados, você pode ter certa dificuldade para achar porque são pouquíssimas e quase não recebem destaque. 

Em agosto do ano passado, em uma das tradicionais lives do presidente Jair Bolsonaro, o chefe da Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo, Gilson Machado, apresentou um novo decreto sobre proteção animal. A proposta sugeria a instituição da Coordenação Nacional de Proteção e Defesa Animal no Ministério do Meio Ambiente. Nas palavras de Machado, “é um órgão federal de políticas públicas que luta pelo bem-estar e combate os maus tratos dos animais domésticos”, e finaliza: “A gente vê pela primeira vez um governo que tem preocupação com os animais”. O decreto foi aprovado em dezembro, mas a aprovação não desenvolveu melhoras significativas para os animais, e assim como muitas outras promessas que ficam no papel, essa não foi a exceção.  

Se já está difícil que o governo se responsabilize pelos bichinhos abandonados, auxiliar economicamente as ONGs ou pessoas como o Wallace e a Larissa é quase impossível. Ambos asseguram a mesma coisa, “é muito burocrático e difícil”.  Por isso, as doações de terceiros é o que permite que o trabalho que ambos desenvolvem de fato possa acontecer. Eles utilizam seus stories no Instagram para mostrar o caso do animal que precisa de ajuda e pedir doações para a alimentação e tratamento do bichinho. Wallace indica que “a galera que doa é aleatória, depende muito do dia, se é fim de mês ou não, mas é difícil. Têm dias que a gente não consegue mesmo”. Larissa concorda e reforça. “As pessoas acham que sempre vai ter alguém mais para doar, mas não é assim, nós precisamos de cada um para poder trabalhar, eu preciso de cada um deles.” 

A veterinária que anda a segunda milha 

Cada resgate realizado tem seu custo, e geralmente ele não é barato. Wallace indica por exemplo que a pata quebrada de um cachorro, pode custar até R$4.000,00, e não é todo dia que se encontram médicos veterinários dispostos a lucrar um pouco menos em certos casos, com a tal de salvar a vida de algum animal necessitado, mas há. 

Daniela Gonçalves, 39, é uma delas. Médica veterinária há quase dez anos, conta que o pai foi a inspiração para fazer o curso. “Era o sonho não realizado dele, então prometi que se eu me formasse, dedicaria parte das minhas atividades ao socorro e atendimento de animais carentes”. E ela cumpriu a sua promessa. Há quatro anos Daniela construiu a sua própria clínica veterinária, o que facilita o atendimento dos animais resgatados pela Larissa, e outras ONG que também atuam a favor da causa animal. Larissa assegura que Daniela tem um bom coração e que “ela sabe tudo o que envolve trabalhar em resgate, então cobra muito mais em conta”, detalha. 

“Não entregamos para qualquer um” 

O processo de adoção dos animais resgatados por Wallace e Larissa é parecido. Antes de que o cachorro ou gato chegue ao seu novo lar, os futuros pais adotivos são cuidadosamente avaliados e precisam assinar alguns documentos. Larissa assegura que, “é preciso ter certeza de que você está entregando os animais a um lugar melhor do que eles vieram”. Ela destaca que adotar um animal leva uma grande responsabilidade e que muitas vezes as pessoas não estão totalmente cientes disso. “Nós nos certificamos que o bichinho seja tratado, vacinado, castrado e amado, então esperamos que eles recebam no mínimo, o mesmo trato com os seus futuros pais”. Wallace ainda acrescenta que após a adoção eles continuam em contato com os pais adotivos dos pets para constatar que eles estão bem e felizes. “Não entregamos para qualquer um. A maioria deles já sofreu muito, então esta nova etapa na vida deles precisa ser a melhor”. 

Lola dos Anjos, de 39 anos, é professora e voluntária na ONG “Anjos de Focinho”, localizada na mesma cidade da Larissa, Mogi Guaçu. Ela preferiu não falar o nome real devido a ameaças que já recebeu por averiguar denúncias de maus tratos a animais. “Tenho medo que atentem contra a minha vida”, lamenta. Porém, mesmo com o risco que pode representar trabalhar a favor dos animais, ela é ativa na organização, e com relação ao processo de adoção, explica que tem pessoas que desistem de adotar devido ao trâmite criterioso. “Alguns reclamam e dizem que é mais fácil adotar uma criança. Irritam-se, xingam, mas não abrimos mão do processo”. A organização conta até com uma equipe que visita as casas dos possíveis adotantes para descartar possíveis rotas de fuga.  

De morador de rua à Pirata 

Uma das pessoas que assinou com alegria esses documentos e se comprometeu a cuidar do seu novo filho adotivo é a dentista Juliana Santos, de 40 anos. “Eu vi nos stories da Larissa que ela estava por resgatar um Pitbull, e que precisava de um lar temporário para ele”. Após uma conversa com o seu namorado, ela decidiu não apenas oferecer um lar por uns dias e sim, um definitivo. “Mandei mensagem para a Larissa e falei que queria adotar o Pitbull. Ela ficou super feliz e até me convidou a participar do resgate dele”. Quando Juliana e Larissa chegaram até o local, o cachorro estava com bicheira no olho, desnutrido e abandonado. Após receber todos os cuidados necessários e passar pelo trâmite das documentações, Juliana e Pirata, nome que recebeu após ter perdido o olho infectado, estavam prontos para viver o seu felizes para sempre. 

Juliana precisou levar o Pirata para a fazenda onde mora o seu namorado, já que o apartamento dela é pequeno e poderia ser incômodo para ambos. Lá, a 20 quilômetros da cidade da sua nova mãe, ele encontrou praderas de grama suave e verde para correr, a Betty, uma Bitbull que rapidinho se tornou sua amiga, banhos de piscina nos dias quentes e muito carinho. Juliana conta que frequenta duas a três vezes por semana a fazenda. “É uma festa cada vez que chego, ele pula em cima de mim, e fica no meu colo”, relata ela com um sorriso no rosto.

O resgate do Pirata aconteceu no ano passado em dezembro, já são seis meses de amor recíproco entre ambos. Ele até ganhou um destaque no perfil de Instagram da Juliana, com imagens e fotos dele desde o dia que foi resgatado. Juliana acredita que o trabalho que desenvolvem pessoas como a Larissa, é sumamente necessário e valioso. “É sensacional, eu acho que o mundo é um lugar melhor graças a eles”, reconhece. 

Planos e sonhos

Como a maioria, Wallace e Larissa têm aspirações e planos para o futuro. Quando perguntado sobre, Wallace abre um sorriso de orelha a orelha. Ele sabe o que quer há muito tempo. “Ajudar aos vulneráveis, sejam pessoas ou animais, com o que tenho e com o que posso”. Seu sonho é terminar a faculdade de Serviço Social e melhorar a condição de vida de quem não consegue fazer isso por si só. A Larissa quer ser veterinária especializada em animais de grande porte e continuar com os projetos que desenvolve agora. “Minha paixão são os cavalos”. Mas claro, todos os animais serão ajudados e amados se depender dos planos dela.

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