Cristóvão Colombo: herói ou genocida?

In Educação, Mundo
Colombo chega a América, e, com ele, a cruz de Cristo. Pintura de José Garnelo Alda (1866- 1945) feita em 1882.

“O descobrimento da América” foi realmente isso ou apenas o início de uma colonização forçada por parte dos espanhóis?

Hellen Piris

Eram duas da manhã, e, após 70 dias de viagem no Oceano Atlântico, a tripulação do navegador Cristóvão Colombo avistava, pela primeira vez, terras americanas. O dia 12 de outubro é comemorado mundialmente como o Descobrimento da América, feito por Colombo em 1492. Para alguns, é uma lembrança da conquista e colonização do novo mundo. Para outros, representa a recordação das atrocidades que os povos indígenas sofreram em mãos europeias. Independente da maneira como essa história nos foi apresentada, ela mudou a humanidade para sempre.

A história é bem conhecida: Cristóvão Colombo, explorador genovês, com um vasto conhecimento em geografia, cartografia, astronomia, história e teologia, buscava uma rota marítima para chegar à Ásia. Após conseguir o financiamento da viagem por parte dos reis católicos da Espanha, Dona Isabel de Castela e Dom Fernando ll de Aragão, partiu no dia 3 de agosto de 1492 com uma frota de três caravelas: as famosas Santa Maria, Pinta e Niña. Seu destino esperado era a Índia, mas, como sabemos, desembarcou em território americano. O ponto específico foi uma ilha caribenha atualmente conhecida como São Salvador, pertencente ao arquipélago das Bahamas. Colombo continuou a expedição até que desembarcou no cabo Haitiano. Ali, Santa Maria encalhou no dia 24 de dezembro, e, com seus restos, a tripulação construiu um forte chamado “Natal”. Finalmente, em 16 de janeiro de 1493, Colombo decide voltar à Espanha, e chega ao destino menos de dois meses depois, em 15 de março.

Descobrimento ou colonização forçada?

Este acontecimento histórico é conhecido como “O descobrimento da América”, mas afinal, foi realmente um descobrimento ou apenas o início de uma colonização forçada por parte dos espanhóis? É preciso lembrar que antes da chegada de Colombo o território americano já era habitado por civilizações milenárias, como Olmecas, Maias, Incas, Astecas e Toltecas. Esses povos nativos possuíam suas próprias culturas, crenças, estruturas sociais e políticas. Não podemos ignorar que a chegada de Colombo permitiu que América fosse conhecida pelo antigo mundo, além de trazer certos avanços tecnológicos. No entanto, afirmar que ele trouxe consigo a civilização é negar aquelas que já existiam. O elemento utilizado para colonizar os nativos foi a violência. Eles tentaram se defender, mas, perante as modernas armas e munições que os espanhóis possuíam, o confronto bélico não poderia ter acabado de outra forma. Milhares de nativos foram assassinados, escravizados e obrigados a aceitar o catolicismo.

Apenas coadjuvantes?

O professor de história e mestre em Cultura e Sociedade Jorge Ubiratan explica que “todo acontecimento histórico é mais complexo que uma polaridade entre o positivo e o negativo”. É preciso se questionar para quem o efeito pode ser considerado bom ou ruim. Neste caso, para as sociedades nativas, foi o extermínio de tudo aquilo que conheciam e representavam, seja cultura, relação com a natureza ou segurança. Já na visão europeia, chegar às terras americanas significou a expansão da lógica capitalista (mercantil) e do domínio total do globo. Contudo, Ubiratan indica que “fosse por via de Colombo ou de qualquer outra figura que representaria os interesses europeus, era questão de tempo que a América fosse conquistada. Isso ocorreu em função dos avanços científicos, técnicos e náuticos”. Assim, podemos nos questionar: será que se os navios que chegassem aqui primeiro fossem comandados por outra pessoa, a abordagem teria sido diferente? Poderia a colonização do território americano ocorrer de uma maneira menos violenta, sem sangue e mais humana?

Cada país possui a sua própria escrita sistemática da história. Ela é fortemente influenciada por fatores políticos, sociais, religiosos, e, principalmente, tradições. Essas dependem da época, nacionalidade na qual a narrativa é disseminada, interesses, e, até mesmo, interpretação de quem a conta. “Um mesmo personagem pode ser visto como vilão, herói, ou, simplesmente, ser ignorado, a depender dos interesses de quem escreve”, frisa o professor. A colonização da América marca tanto o início da globalização quanto o fim da liberdade de civilizações inteiras. O movimento econômico e político que começou naquele 12 de outubro alcançou a cultura e permitiu a transformação da sociabilidade. Porém, custou a vida de milhares de inocentes. Ubiratan ousa perguntar: “Questiona-se hoje a validade dos heróis, a legitimidade dos fatos, o próprio conceito de “descobrimento”, afinal, o sujeito neste conceito é protagonista.  E as populações nativas? Apenas coadjuvantes?”.

Entrevistamos seis estudantes do ensino superior em diferentes países da América para saber qual perspectiva lhes foi passada na escola a respeito da chegada de Cristóvão Colombo.

  • Colômbia

Leus Monsalve, estudante de Medicina

“Lembro que a visão que tínhamos do fato de Cristóvão Colombo ter chegado à América era bastante negativa. O professor de História dizia que os nativos americanos eram muito ingênuos, já que na Colômbia há muita riqueza mineral, especialmente ouro, e os espanhóis intercambiavam com os nativos espelhos por ouro. Para eles, isso era uma novidade, e os espanhóis se aproveitavam disso. No entanto, a imposição da crença religiosa, o catolicismo, foi o fator mais negativo”. 

  • Paraguai

Ana Zarate, estudante de Engenharia Comercial

“No meu país, a chegada de Colombo à América não foi apresentada como uma catástrofe nem como um ato heroico. Fomos ensinados que, graças a esse acontecimento histórico, foi possível o desenvolvimento da civilização, tanto em conhecimento científico, como no intercambio de espécies da fauna e flora, e, claro: o início da mestiçagem. Mas isso, ao mesmo tempo, ocasionou uma notável baixa na população indígena originária dessas terras. Os motivos foram variados: doenças infecciosas antes inexistentes como a varíola, ou as grandes guerras entre nativos e colombos. Além disso, destaco que os espanhóis levaram uma grande parte das riquezas do nosso continente. Nós aprendemos a enxergar este fato dos dois lados da moeda”.

  • Guatemala

Max Méndez, estudante de Física

“Meu país é o berço da cultura Maya. Os colonos realmente fizeram muito dano aos nossos povos, roubando deles ouro, saqueando elementos importantes da história Maya, matando milhares de nativos da época e destruindo impérios contemporâneos. Por esse motivo, desde criança, somos ensinados que os colonos não foram algo bom para o nosso país, já que causaram mais dano do que boas ações. Eles destruíram a nossa história, e, com o passar do tempo, perdemos muito a nossa própria cultura pelas misturas com outras e imposição do catolicismo por parte dos espanhóis”.

  • Argentina

Andrés Ramos, estudante de pré-Medicina

“Fomos ensinados a encarar a história da chegada de Cristóvão Colombo à América por uma perspectiva europeia. É ensinado com muitos detalhes como foram as viagens de Colombo e tudo que ele teve que fazer para concretizar a travessia em 1492. Ele é apresentado como uma figura sumamente importante. Não é comentada com frequência a história nativa da América. Os dados que os professores nos apresentavam sobre isso eram listas de povos indígenas que Colombo colonizou e suas descrições físicas e sociais. Fomos ensinados a enxergar a Cristóvão Colombo como um herói por sua descoberta, e não a focarmos no que ele fez com os nativos da América”.

  • Equador

Romina Castro, estudante de Jornalismo

“Do que me lembro sobre como apresentavam Cristóvão Colombo na escola, ele era alguém heroico, um precursor, devido ao descobrimento. Os nossos professores ensinavam que o descobrimento de América foi um fato positivo para a história. Sempre nos faziam utilizar imagens dele, e o apresentavam como alguém culto, preparado. Também falavam muito sobre as suas viagens e expedições”.

  • Brasil

Walace Ávila, estudante de Jornalismo

“A professora fez com que criássemos uma imagem dele como aventureiro, descobridor, alguém que ajudou o continente. A narrativa era de descobrimento mesmo. Hoje, penso diferente. Uma professora da faculdade enfatizou que essa descoberta não existiu, e sim exploração e destruição. Concordo com ela. O processo foi muito sangrento, e acabamos por esquecer disso. No entanto, provavelmente não estaríamos aqui caso Colombo não tivesse chegado à América”.

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