Proposta de Temer pretende reduzir as aulas presenciais no EM

In Entrevista

A socióloga Andréa Gonçalves conversou com o ABJ Notícias sobre a proposta

Sabryna Ferreira

Sala de aula, carteira, colegas de classe e a própria ida à escola podem deixar de fazer parte da realidade diária dos estudantes do ensino médio brasileiro. A proposta do presidente Michel Temer de liberar que até 40% da carga horária seja a distância tem gerado dúvidas e discussões. Essa possibilidade que surgiu com a reforma do ensino médio, aprovada em 2017, mas logo foi vetada. Agora, com a atualização das Diretrizes Curriculares Nacionais do Ensino Médio (normas da educação básica que orientam escolas públicas e particulares), essa regulamentação de carga horária é prevista. Uma vez definidas as diretrizes, fica a critério das redes públicas e privadas de ensino a elaboração de formatos e ferramentas para este novo método. Neste caso, as aulas presenciais seriam reduzidas a 2 dias por semana. Em entrevista ao ABJ Notícias, a socióloga Andréa Gonçalves opinou o assunto.

ABJ Notícias: Como professora da rede pública de ensino e como socióloga, o que você acha da possibilidade de parte da carga horária do ensino médio ser cumprida a distância?

Andréa Gonçalves: A medida da educação EAD nessa conjuntura está em consonância com a ideia de Estado mínimo do neoliberalismo, a qual isenta o Estado de sua responsabilidade para com o indivíduo, delegando, única e exclusivamente, a este último o encargo de seu êxito ou fracasso no processo de aprendizagem pela falácia da meritocracia. Contrariando assim, o dever legal do Estado em garantir e promover estratégias de acesso e permanência do estudante na escola e em sala de aula.

Nestes moldes, a dinâmica do ensino à distância visa o desmonte de rede pública de ensino por também não contribuir para uma relação interpessoal crítica e consciente do indivíduo e seu meio. Fala-se, inclusive, em substituição de carga-horária – chegando até dois dias de aula – de disciplinas que deveriam ser cumpridas no âmbito escolar, isso para cobrir os 40% do total do currículo escolar a qual a modalidade EAD deveria dar conta.

ABJ: Quais seriam as implicações disso para os alunos?

Andréa: Uma interação ampliada do aluno com os demais agentes sociais que compõem a dinâmica escolar, como: os professores, demais estudantes, equipe pedagógica, de apoio e administrativa, é o que também permite o estudante pensar outras dinâmicas de vida e conjunturas sociais. Assim, questiona-se o impacto que uma educação remota poderá incitar sobre a formação individual e social destes estudantes. O exercício da tolerância, alteridade, do bom debate e discussões relacionadas ao cotidiano do estudante são habilidades que só podem ser melhor desenvolvidas com a interação social que o ambiente escolar diverso pode proporcionar.

ABJ: Quais seriam os pontos positivos desta mudança?

Andréa: O ensino a distância tem o seu lugar na medida em que promove difusão de conhecimentos que, de outro modo, não seria possível. Porém inserem-se nessa modalidade, especialmente, cursos de aperfeiçoamento profissional, ou seja, àquelas que promovem a continuidade do ensino, a exemplo de cursos técnicos, de graduação e pós-educação. Níveis de ensino que pressupunham certo grau de maturidade, autonomia e discernimento crítico-reflexivo já desenvolvidos na educação básica em nível médio.

ABJ: E os negativos?

Andréa: Cria-se uma falaciosa ideia de que, tão somente, a educação remota incentivaria certa autonomia do estudante, sendo este capaz de mediar seu próprio processo de aprendizagem nos espaços virtuais. No entanto, a proposta de difusão da modalidade do ensino à distância em nível médio, não supre a necessidade de socialização, da construção de repertório em respeito à diversidade e pluralidade de saberes, meios e modos de ser, viver e estar de outros grupos sociais e que são diversos à sua conjuntura. Priva o jovem, nessa fase da vida, de uma vivência social ampliada, cerceia a possibilidade do debate e facilita a replicação de analfabetos políticos justamente por não promover o diálogo com posições diversas da sua, compreendendo as variadas possibilidades de entendimento acerca da vida social.

ABJ: Esse método de ensino funcionaria na rede pública de ensino?

Andréa: A impossibilidade operacional, principalmente das escolas públicas, em viabilizar o ensino EAD incitará sobre o seu sucateamento, desvalorização da formação e carreira dos profissionais da área de educação. Estes profissionais perderão espaço de atuação e estarão vulneráveis enquanto profissionais por então ser considerada dispensável a figura do professor.

Justificativas tais como a falta de professores na rede pública que atendam toda a demanda educacional, mascara a omissão do Estado em oportunizar vagas, mediante concurso público para surgimento de novos profissionais para atuarem na área de formação, por exemplo.

ABJ: E na rede privada?

Andréa: No contexto da rede privada de ensino, precariza-se ainda mais estes profissionais barateando os salários que já não são essas maravilhas. A proposta EAD não é pensada como um complemento, uma opção a mais para diversificar as atividades discentes-docentes ou estreitar a relação anteriormente estabelecidas em sala de aula, mas tem sido arbitrariamente posta como atividades norteadoras, e não facilitadoras, de um processo – relação professores (as) / alunos (as) – que deveria ser anteriormente concebido na forma presencial.

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