ONG ‘SP Invisível’ traz um outro olhar sobre pessoas em situação de rua

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SP invisível

Conscientizar e humanizar os olhares sobre quem vive nas ruas de São Paulo é a missão de voluntários e colaboradores de projeto que já atendeu mais de 33.900 pessoas em situação de rua.

Rayne Sá

Quando um grupo de adolescentes decidiu sair às ruas para documentar o “invisível” na cidade de São Paulo, eles não imaginavam que entre tantas fotos registradas, os mais invisíveis que encontrariam ali seriam as pessoas em situação de rua. Além de corpos, elas possuíam histórias invisíveis para a sociedade e para o poder público. Portanto, para dar visibilidade ao tema, o jornalista Vinícius Lima e seu amigo, o estudante de Cinema André Soler, participantes da dinâmica, decidiram contar essas histórias através do fotojornalismo. 

Assim, em março de 2014, nasce o coletivo SP Invisível com o propósito inicial de sensibilizar e apresentar à sociedade essa realidade que estava tão perto delas mas, que ao mesmo tempo, passava despercebida. O conteúdo produzido era publicado em uma página no Facebook que, em pouco tempo, alcançou mais de 400 mil seguidores. “As pessoas foram ficando incomodadas, querendo fazer alguma coisa, porque por mais que eles passassem a ver que tem seres humanos na rua, que existiam histórias ali, às vezes não tinham coragem de tomar iniciativa e fazer alguma coisa, então a gente se viu responsável por criar esses ambientes”, destaca o co-fundador do projeto, Vinicius. 

O projeto

Atualmente, o movimento possui voluntários e colaboradores que atuam desde a produção de conteúdo à realização de ações, como o Natal Invisível, que já promoveu ceia para cerca de 1.000 pessoas; a Páscoa Invisível, com distribuição de cartas e ovos de chocolate e o SP sem Frio, que constrói kits para distribuir às pessoas em vulnerabilidade social. Juntos somam mais de 100 ações sociais já feitas e 33.978 pessoas em situação de rua atendidas. 

Além de ajudar, as iniciativas também têm como objetivo trazer uma conexão entre as duas realidades, de modo a resgatar a dignidade dessas pessoas. “Então a gente fala pro nosso voluntário que ele não tem que se preocupar só com os números de kits que ele vai entregar, com o número de refeições que ele vai servir na ação, mas que ele sempre sente ali com a pessoa, tenha uma interação, ouça aquela história e saia de lá com o coração, com a cabeça transformada”, ressalta um dos idealizadores. 

A pandemia que ninguém vê

Em 2020, quando o mundo foi surpreendido por um vírus novo e desconhecido, o SP Invisível, além de lançar a obra “A pandemia que ninguém vê”, que reúne histórias de pessoas que são consideradas invisíveis para a sociedade, foi para as ruas saber como estava a situação. “Durante a pandemia, a gente se viu diante da orientação de permanecer em casa, e o primeiro questionamento que a gente fez foi, óbvio, a de ‘e quem não tem casa, né?’ A gente lida com pessoas que não tem casa, então como é que fica?”, relata Lima.

Muita gente ainda não sabia do que se tratava e porque tinha que usar máscara ou álcool em gel, como o relembra o co-fundador. Neste sentido, eles viram a necessidade de prestar dois serviços: o de levar mantimentos e informação. “Mas também em paralelo, pedir habitação, porque nada adianta a gente passar álcool gel, usar máscara e no final tá dormindo exposto ao vírus”, relata. As ações cotidianas realizadas pela ONG nesse período, prezavam tanto pela entrega dos kits higiênicos, como pela distribuição de afeto através de cartinhas escritas pelos voluntários. 

Uma ode às histórias 

Com mais de 1.700 histórias contadas ao longo dos anos, o SP Invisível promove uma relação de escuta e conexão com a população de rua: histórias de superação, fome e pobreza coexistem entre aqueles que encontram abrigo nas calçadas da cidade e reforçam a necessidade que há para a existência de movimentos que lutem pelos direitos da população de rua. 

Para Lima, as histórias contadas são capazes de gerar um sentimento de identificação e proximidade com quem as escuta, como a vez em que ele percebeu que muitas pessoas possuíam histórias parecidas com as dele, e que até a família poderia ser um sinônimo de  privilégio e oportunidade que poucos têm. “Cresci só eu e minha mãe, mas graças a Deus apareceu um monte de gente ali que deu aquele suporte, então você vê que até a família é um privilégio seu. Ou quando eu ouço, por exemplo, que o sonho da pessoa é estudar jornalismo, ou jogar basquete. Eu pude viver essas coisas, então isso gera muita proximidade”, destaca.

Políticas públicas 

Na quarta cidade mais populosa do mundo, o número de pessoas em situação de rua cresceu 31%, em dois anos. Os dados do Censo da População em Situação de Rua, conduzido pela Secretaria Municipal de Assistência Social de São Paulo (SMADS), e realizado pela empresa Qualitest Ciência e Tecnologia Ltda, mostrou que atualmente, existem cerca de 31.884 moradores de rua na capital paulista. Os perfis socioeconômicos e de gênero apontados na pesquisa são variados e revelam a importância de criar políticas públicas que assegurem o direito dessa população. 

De acordo com Lima, existem três tipos de políticas públicas para essa situação. “A primeira é para tirar pessoas da rua, mas como isso é um processo, a gente precisa de políticas para tratar a vida na rua com dignidade e, depois políticas para evitar que mais pessoas cheguem nas ruas”, esclarece.

“E, hoje a gente só tem essa do meio, a vida na rua com dignidade, mas São Paulo tá funcionando de um jeito que gera mais e mais pessoas na rua toda vez”, alega. Sendo assim, o co-fundador acredita que o Estado precisa primeiro enxergar quem está nas ruas como pessoas que têm problemas e não como os próprios problemas.

Foto: Divulgação / André Soler / SP Invisível

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