Os desafios do paratleta

In Entrevista, Esportes

Melissa Maciel

Um dilema persistente na sociedade contemporânea é a questão das dificuldades enfrentadas por pessoas com deficiências físicas no meio esportivo. Por muito tempo a visibilidade dada aos atletas paralímpicos foi precária. Apesar de existirem impasses com relação ao reconhecimento e destaque desses atletas, a modalidade paralímpica tem conquistado espaços. Mas. a pandemia do novo coronavírus trouxe novas dificuldades aos atletas quanto a manutenção do condicionamento físico, principalmente por conta do isolamento social. 

Para esclarecer esses aspectos, a ABJ Notícias entrevistou o atleta paralímpico de natação, Phelipe Rodrigues. Phelipe tem 30 anos, é especialista na prova dos 50 metros nado livre e foi medalhista nas olimpíadas de Pequim 2008, Londres 2012 e Rio 2016. O nadador nasceu com má formação congênita no pé direito e teve sequelas no pós-cirúrgico. Por conta disso, o pé e a panturrilha direita são consideravelmente menores que os da esquerda.

 

Melissa Maciel: Quando você descobriu a paixão pelo esporte?

Phelipe Rodrigues: Primeiramente eu tinha adentrado ao esporte, na natação principalmente, como um método fisioterapêutico, porque eu acabei não me adequando muito bem ao método convencional de fisioterapia. Assim, usei a natação como método alternativo e com 10 anos de idade acabei criando um gosto maior. Então, quando eu tinha 12 anos meus pais se mudaram de Olinda, em Pernambuco, para João Pessoa, na Paraíba, e foi lá que criei o gosto mesmo, não só pelo esporte, mas também pela natação competitiva.

MM: Você sentiu apoio das pessoas que o acompanhavam, diante da escolha de se tornar um paratleta profissional? 

PR: Minha família, principalmente, sempre me apoiou independente de qual posição eu ficava. Nas competições estaduais, regionais, eles sempre me apoiaram e incentivaram. Quando eu tinha 17 anos de idade, recebi uma proposta para participar das paraolimpíadas de Pequim e ali meu pai me perguntou se era aquilo mesmo que eu queria e eu disse que sim, que eu não tinha nada a perder, só tinha a ganhar e então ele simplesmente disse: “Então segue em frente”. Mas as pessoas que me acompanhavam sempre me incentivaram a fazer esporte e quando viram que eu gostava muito da natação, acabaram me incentivando ainda mais e isso foi essencial para o atleta e a pessoa que eu sou hoje.

MM: Como lidava com aqueles que demonstravam falta de fé? 

PR: Particularmente eu nunca dei muita bola para aqueles que sempre duvidaram de mim e da minha capacidade. Eu segui a minha fé e a fé da minha família em mim. Eles sempre mostravam que era possível. Tinha alguns parentes que tentavam me desmotivar, mas eu sempre respondia firme e forte que era uma coisa que eu amava e não iria parar tão cedo. 

MM: Como se deu a questão do incentivo ao longo da sua evolução como paratleta no que tange ao aspecto financeiro, ou seja, patrocínios e auxílios governamentais?

PR: Desde que eu me tornei um atleta paralímpico, eu faço parte do programa Bolsa Atleta, um programa financeiro do governo. A cada ano eu venho subindo de categoria, até chegar na categoria máxima que é o atleta pódio. Eu não tenho o que reclamar sobre os auxílios governamentais. Já morei fora do país e posso falar que o programa do Governo Federal do Brasil é muito completo. Ele abrange muito mais atletas do que outros países afora. Hoje eu também tenho patrocínio de empresas privadas e isso faz com que nós vejamos que o esporte paralímpico está sendo reconhecido de uma outra maneira, não só como “coitadinho”, mas um esporte de alto rendimento em si.

MM: Você percebe que ainda há muita falta de visibilidade para atletas paralímpicos? 

PR: Desde quando eu entrei no movimento paralímpico, em 2008, vi que o paradesporto cresceu demais. Hoje a gente tem uma diferença sim, de visibilidade com relação aos atletas olímpicos, mas esse espaço foi diminuindo bastante. Ainda assim, a gente vê que a visibilidade que temos para as pessoas é a imagem de “coitadinho”, que não é o caso. Então, hoje a gente trabalha com vários veículos de mídia e de jornalismo para tentar desmistificar isso. Porém, de 2008 para cá, essa modalidade olímpica cresceu imensamente, o Rio 2016 foi o ápice do movimento no nosso país. Vejo que cada dia mais o paradesporto vem ganhando o seu espaço.  

MM: Na sua opinião, qual seria a melhor forma de mudar esse cenário?

PR: Na minha opinião, a melhor forma de desmistificar essa questão da visibilidade do paratleta, é realmente quebrar esse tabu de que um atleta com deficiência é um atleta “coitadinho”. Um atleta com deficiência tem apenas uma limitação e, assim, ele vai ter que se superar para quebrar aquele limite.   

MM: Como foi a adaptação à rotina de atleta paralímpico? 

PR: Eu acredito que a rotina de um atleta paralímpico é até mais puxada do que o treinamento até chegar nessa condição. No meu caso, como eu medalhei em todas as paraolimpíadas de que participei, fica bem claro que é a meta e o foco que fazem a diferença. Não é fácil, a rotina é bem meticulosa. Você tem que ser bem cauteloso com o que quer e como quer fazer. É preciso refinar mais as suas prioridades e objetivos. 

MM: Quais foram suas maiores dificuldades com relação à prática de exercícios neste período de isolamento e lockdown?

PR: A maior dificuldade nesse lockdown foi conseguir treinar em uma piscina. Eu sei que é difícil também para os atletas que fazem trabalhos terrestres, mas o nadador em si perde muito o tato já que necessita do meio líquido e esse não é o seu habitat natural. Então, ter acesso à piscina e à uma condição legal para treinar foi a coisa mais desafiadora. Mesmo treinando em casa para não ganhar muito peso, nós ficamos com medo de ver como iríamos voltar.  

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