Afinal, cigarro eletrônico é menos prejudicial que o comum?

In Geral, Saúde

Opção tem se tornado comum entre jovens, mas também traz prejuízos à saúde.

Pamela Piassa

Que o cigarro comum é prejudicial à saúde, todos já estão ‘carecas’ de saber. Mas nos últimos anos surgiu uma novidade, o cigarro eletrônico. Ele é prático na hora de usar, possui design moderno, não solta aquela fumaça desagradável e pode até soltar cheiro de frutas. Este dispositivo, é também conhecido como vaper, pod, e-cigarrete, e-ciggy, e-pipe, e-cigar, heat not burn (tabaco aquecido), entre outros. 

O relatório Covitel (Inquérito Telefônico de Fatores de Risco para Doenças Crônicas não Transmissíveis em Tempos de Pandemia), publicado ano passado, revelou que quase um em cada cinco brasileiros de 18 a 24 anos usaram cigarro eletrônico pelo menos uma vez na vida, mesmo sendo proibido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

A comercialização, importação e propaganda de todos os tipos de dispositivos eletrônicos para fumar são proibidas no Brasil, por meio da Resolução de Diretoria Colegiada da Anvisa: RDC n.º 46, de 28 de agosto de 2009

O que é o cigarro eletrônico

Desde 2003, quando os dispositivos eletrônicos foram criados, houveram diversas gerações: os produtos descartáveis – de uso único; os produtos recarregáveis com refis líquidos (que contém em sua maioria propileno glicol, glicerina, nicotina e flavorizantes) – em sistema aberto ou fechado; os produtos de tabaco aquecido, que possuem um dispositivo eletrônico onde se acopla um refil com tabaco; os sistema ‘pods’, que contém sais de nicotina e outras substâncias diluídas em líquido e se assemelham à pen drives, dentre outros.

O cigarro eletrônico não possui alcatrão e o monóxido de carbono presentes nos cigarros tradicionais, substâncias capazes de causar inúmeras doenças, dentre elas, o câncer de pulmão. Em contrapartida, estes cigarros ‘diferentes’ liberam outras substâncias também tóxicas à saúde, como chumbo, níquel, estanho e crômio. Muitas delas com potencial carcinogênico.  

Atualmente, é possível encontrá-lo facilmente em lojas pela internet ou adquiri-lo em viagens do exterior. Os preços variam de acordo com a tecnologia usada, mas começam em R$50 e podem chegar a R$1.200.  

Malefícios do uso

Em 2016, um estudo feito pela Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (Opas/OMS) em conjunto com a Anvisa e o Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA) revelaram a existência de malefícios na utilização indiscriminada dos dispositivos de vaporização. 

O estudo revelou que o propilenoglicol presentes no e-líquidos quando aquecido e vaporizado, pode formar o óxido de propileno, uma substância com ação possivelmente carcinogênica. Além deste problema, o estudo ainda observou a presença de níveis elevados de óxido nítrico exalado (um modulador da reação inflamatória pulmonar) entre os usuários de cigarros eletrônicos com nicotina. 

Foi descoberto que sódio, ferro, alumínio e níquel estavam presentes em concentrações maiores nos vapores dos cigarros eletrônicos do que nos cigarros regulares. 

O estudo revelou que as células epiteliais normais de glândulas, órgãos, e cavidades de todo o corpo, incluindo a boca e os pulmões, que foram expostas ao extrato de vapor, apresentaram vários tipos de dano, entre eles o aumento da ruptura das cadeias de DNA que compromete o processo de reparação celular, sendo, portanto, um risco para o surgimento do câncer

Além disso, em quase todos os dispositivos pesquisados, as baterias eram feitas de zinco e possuíam resquícios de cádmio. Em caso de falha na produção do produto estas baterias podem vazar e entrar em contato com o líquido a ser vaporizado.

Em 2019, a OMS publicou um relatório informando aos 180 países signatários da Convenção-Quadro da Organização Mundial da Saúde para o Controle do Tabaco os riscos da falta de regulamentação destes produtos. “Embora os níveis específicos de riscos associados aos SEAN (Sistemas Eletrônicos de Administração de Nicotina) não tenham sido estimados de forma conclusiva, eles são indubitavelmente prejudiciais e deveriam, portanto, estar sujeitos à regulação”, diz o relatório.

Um estudante de Psicologia, que preferiu não ter sua identidade revelada, declarou fazer uso do vape. “Ele tem bateria, refil para colocar a essência, redutor para esquentar o vapor, algodão para trocar e ficar limpo. Quando acaba o refil é só colocar mais e trocar o algodão”, relata.

Quando questionado sobre a maleficidade do aparelho, ele alega que depende de como é feita a limpeza do produto. “Depende de quem está usando, o meu eu troco o algodão sempre, tem gente que não troca, aí fica preto e cheio de bactérias”, afirma. O estudante ainda diz não ser usuário do cigarro comum e fazer apenas uso controlado do produto, em festas e ocasiões especiais.

Para o pneumologista Ricardo Figueiredo o cigarro eletrônico está ligado ao aumento de infecções respiratórias, crises de asma, infarto e derrame. “Além disso, uma das grandes mazelas dos vaporizadores foi aumentar mais de 300% o número de adolescentes e jovens que fumam no Brasil. Isso é um extremo retrocesso na política brasileira de cessação tabágica. O comércio ilegal não permite controle governamental sobre as altas concentrações de nicotina utilizadas nos vaporizadores. Os dados populacionais de longo prazo deste problema são incalculáveis,” conclui o especialista.

Cigarro eletrônico é uma alternativa para ajudar a parar de fumar?

Até o momento não há estudos toxicológicos e testes científicos que comprovem que o cigarro eletrônico possa auxiliar o abandono do tabagismo ou que não possa trazer malefícios à saúde. O Ministério da Saúde não entende o aparelho como um método de combate ao hábito de fumar. 

“Você estaria trocando um problema por outro problema. Minha posição é a mesma da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT): é preciso concentrar os esforços em parar de fumar. Somente um estudo inglês demonstrou efeitos maléficos à saúde levemente menores com vaporizadores. Apenas o governo do Reino Unido oferece essa alternativa para fumantes, todas as outras agências governamentais são contra cigarros eletrônicos”, conclui Ricardo.

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