Médico brasileiro faz história nos EUA com xenotransplante

In Ciência e Tecnologia, Geral, Saúde

Em março, Leonado Riella conduziu um xenotransplante renal. 

Marlon Davis P. Bento

Leonardo Riella fez história em 16 de março ao ser o condutor da cirurgia mais comentada da atualidade. Isso aconteceu pela utilização de um recém-criado método cirúrgico, que se baseia na troca de órgãos entre diferentes espécies, o xenotransplante. Enquanto a cirurgia se desenvolvia, no Brasil, buscou-se encontrar novas formas que facilitassem a doação de órgãos.

Esse procedimento realizado em março é inovador e pouco se sabe a respeito dele. Esse desconhecimento é normal, uma vez que, tudo o que é novo se encontra em processo de compreensão e análise. 

Nesse sentido, o doutor em nefrologia clínica pela Universidade de São Paulo (USP) Miguel Moyses Neto comenta que sempre existiu o sonho de transplantar órgãos entre indivíduos de uma mesma espécie.  Quando isso se tornou possível, caracterizou-se como algo “surpreendente” e, até então, pouco conhecido, bem como hoje ocorre com o xenotransplante.

Médico explica como funciona o xenotransplante.
Dr. Miguel Moyses Neto, doutor especialista em nefrologia, que comentou o caso. Foto: Marlon Bento

A causa da cirurgia se dá pela falha renal, que inviabiliza o rim de realizar suas funções adequadamente e torna necessário o tratamento de diálise, que acontece com mais 150 mil pessoas só no Brasil. Dessas, cerca de 37 mil estão na fila de espera para um transplante renal. 

Diante dessa demanda, um dos fundadores da USP campus Ribeirão Preto, o médico Ailton José de Paula, explica que “em vista da manutenção da vida” todos os meios possíveis devem ser utilizados, o que apoia o avanço do transplante renal entre diferentes espécies. 

Mas por que o rim suíno? 

“Porque […] os primatas não são tão fáceis de reproduzir e criar como os porcos, além de possuírem doenças similares às dos humanos”, discorre o Dr. Moyses. Além disso, o rim do porco foi escolhido por apresentar certa similaridade, tanto na genética como em suas próprias funções renais em relação ao órgão humano. 

Embora, por natureza, haja semelhanças, 69 edições genômicas foram feitas para que a cirurgia pioneira fosse um sucesso. A tecnologia utilizada é chamada CRISPR-Cas9, conhecida como “tesouras mágicas”, que é capaz de inativar genes indesejados (retrovírus endógenos) e acrescentar outros compatíveis aos seres humanos.

A técnica é inovadora, porém apresenta vários desafios, como: risco de rejeição, transmissão de doenças, incompatibilidade bioquímica e barreiras por princípios éticos, como afirma o nefrologista.

Embora esses desafios existam, é fato que a novidade cirúrgica é uma alternativa para solucionar o dilema da alta demanda por transplantes no Brasil e no mundo. 

Como suprir a demanda

O administrador de empresas no interior paulista, Catanduva, e transplantado há 23 anos, Eduardo Bauab, também demonstrou ânimo pela nova cirurgia. Bauab a viu como uma ótima opção para casos extremos e irreversíveis. Todavia, mencionou as muitas burocracias da lei de doação de órgãos brasileira, que dificultam a fluidez das filas de espera. Filas essas que, só em São Paulo, possuem mais de 23 mil pessoas. O moderno transplante poderia, portanto, suprir a pouca quantidade de doações. 

Assim, olhando para o futuro, esse procedimento diminuiria consideravelmente os alo transplantes (de rins de falecidos ou de membros da família).

Contudo, Dr. Miguel ressalta que esse novo tipo de transplante renal, por enquanto, não seria tido como a salvação do universo, não sendo um objetivo inicial transplantar a todos com rins suínos. Ele funcionaria apenas como uma válvula de escape para situações específicas. 

Ministério da Saúde 

Enquanto a tecnologia do xenotransplante não se populariza, o governo brasileiro, por meio do Ministério da Saúde, busca amenizar a demanda por rins para transplante. Eles procuram aumentar a conscientização e a facilidade para se doar órgãos.

Foi divulgado no dia 2 de abril o lançamento de um novo aplicativo, que tem o objetivo de facilitar a doação de órgãos. Bauab demonstrou apoio ao novo app, e disse que este certamente facilitará a doação de órgãos, mas não o suficiente para que se tenha uma diminuição considerável na fila de espera.

A ideia surgiu da necessidade da inversão no sistema de doação, na qual todos, uma vez nascidos, seriam automaticamente doadores de órgãos. Se por acaso, por motivos pessoais, não quisessem, poderiam a qualquer hora recorrer aos seus direitos. 

A advogada, transplantada e co-fundadora da Liga de Atletas Transplantados do Brasil, Luciane de Lima, concordou com Bauab e contou que essa ideia só não deu certo ainda pela crença de que a doação deve acontecer por meio da conscientização. “Eu acho que nós, se dependermos de conscientização, vamos esperar mais ou menos uns 100 anos para mudar”, critica. “Acho que tem que ser de cima para baixo, e de forma mais inquisitiva”, finaliza. 

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