Piadas nas redes sociais reforçam preconceitos sobre povos ameríndios

In Ciência e Tecnologia, Cultura, Geral

Comentários nas redes sociais sobre os povos ameríndios excluem contribuições desses povos para a sociedade contemporânea .

Paula Orling

Lojas que não aceitam pix, empresas aéreas sem check-in online, computadores com CPU, pendrive e telefone fixo são condições que parecem estar deslocadas no universo tecnológico da atualidade. Essa é a ideia de muitas pessoas que não perdem tempo para manifestar sua insatisfação nas redes sociais e usam variações da expressão “como faziam os astecas e os maias”. Apesar do tom criativo, geralmente sarcástico e até cínico dos comentários, a ideia da comparação é real para muitas pessoas, que ainda enxergam os nativos da América como pouco evoluídos com tecnologias quase nulas. Mas essas ideias têm fundamento?

O conceito de superioridade em relação aos povos mais fracos não é novidade para ninguém. Pensamentos semelhantes percorreram o Brasil e o mundo durante vários processos históricos. Um exemplo disso foi o processo de colonização, quando os povos subjugados eram considerados “sem alma”, pouco evoluídos e, por vezes, foram comparados até com animais. A maior problemática? Ideias misóginas como estas são perpetuadas no imaginário contemporâneo.

Contribuições das tecnologias pré-colombianas

Na verdade, o que poucos levam em consideração é a grande quantidade de contribuições que os povos ameríndios ofereceram para o desenvolvimento de tecnologias contemporâneas. A respeito do avanço pouco conhecido destas populações a historiadora e professora Andréia Walter descreve o avanço que estas populações representaram para o contexto em que estiveram inseridos. “Entre as “tecnologias” que esses povos possuíam, chama a atenção o conhecimento matemático que era utilizado na arquitetura, o conceito do zero utilizado pelos Maias”, cita como exemplo. 

Além disso, ela afirma que este povo possuía “conhecimento da astronomia, possibilitando a criação de calendários e organização do sistema de cultivo com base nas estações do ano.”

Uma dessas grandes contribuições está descrita em uma obra chamada “Fundamentos de Ciência e Tecnologia de Alimentos”, escrita por Marília Oetterer, Marisa Aparecida Bismara Regitano-d’Arce e Marta Helena Fillet Spoto. Ao desenvolver uma linha cronológica a respeito das tecnologias utilizadas na produção de alimentos. E, para o espanto de muitos, os astecas foram citados como figura central para a formação do que hoje se conhece por “tecnologia agrícola”.

Outra tecnologia dos povos pré-colombianos que ainda encontramos na atualidade é a da ponte-inca, presente na formação de grandes construções arquitetônicas modernas, como uma das pontes da Califórnia e de outras regiões do mundo. Diante desta percepção, Gabriel Castro publicou o artigo “A evolução dos materiais. Parte II: A contribuição das civilizações pré-colombianas”. A publicação elaborou uma retrospectiva histórica sobre a evolução da arquitetura e mostrou conceitos usados hoje que já eram aplicados pelos incas há centenas de anos.

Impacto na atualidade

Invenções dos ameríndios de centenas de anos atrás podem parecer pouco impactantes na sociedade atual, afinal, o mundo evoluiu no aspecto tecnológico. O que poucos sabem é a herança sistemática que estes povos deixaram para a contemporaneidade.

Compreender os desenvolvimentos de maias, incas, astecas e outros povos permite a aplicação destes conceitos na prática cotidiana. Um aspecto de grande desenvolvimento é arquitetônico.

A este respeito, o estudante de Arquitetura e Urbanismo, Paulo Victor Mendes, comenta que os memes que viu no Twitter o fizeram pesquisar mais sobre esses povos que influenciaram diretamente em sua área de estudos. “Apesar de toda essa brincadeira, por ser um estudante de arquitetura é impossível não pensar sobre como os Maias e Astecas eram extremamente avançados tecnologicamente para a sua época”, opina.

Ao pesquisar, o estudante descobriu qual o impacto os ameríndios tiveram na arquitetura moderna. “Essas civilizações foram as mais desenvolvidas das américas, do ponto de vista material e grandes exemplos disso são suas grandes construções, que são repletas de ritmo e simetria, além dos grandes jardins flutuantes”, reforça.

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