Que dificuldades podem ter os pais ouvintes com filhos surdos?

In Cultura, Geral

A porcentagem de crianças surdas com pais ouvintes está entre 90 e 95% no Brasil.

Raquel Condor

Segundo Sílvia Andreis Witkoski, autora de vários livros na área de Educação de Surdos, entre 90 e 95% das crianças surdas nascem em famílias ouvintes e, na maioria dos casos, as famílias desconhecem o que implica ser uma pessoa surda, como no âmbito social, linguístico, educacional e emocional.

Receios em relação à surdez do meu filho

“Pais idealizam os filhos durante a gestação, porém, quando há a quebra de expectativas ao nascimento do filho, há a necessidade de viverem uma fase de luto para ser possível a ressignificação de seus sentimentos e aceitação da nova realidade”, afirma Camila Lima de Souza, bacharel em Fonoaudiologia pela Universidade Federal da Bahia. 

Lia de Almeida Lugatti criou a sua sobrinha desde que era uma bebê. Conta que quando soube que sua sobrinha era surda, se sentiu perdida. “Pensei que não ia conseguir dar conta”, menciona.

O medo de não saber o que fazer ou como lidar com o fato de o seu filho ser deficiente auditivo está presente. “A dificuldade maior é precisar de ajuda e não ter, principalmente de profissionais que entrem em consenso para ajudar realmente os responsáveis”, diz Lugatti.

Segundo a experiência dela, é muito importante que os profissionais não inundem os pais com informações no momento em que recebem a notícia, pois isso só os deixará mais nervosos do que já estão.

Lugatti indica que foi muito difícil escolher a qual escola mandar a sua sobrinha. “As pessoas dificultavam muito e sem contar a burocracia pra tudo”, diz. “Mas o que nos ajudou muito foi que, bom, naquela época a língua de sinais estava começando a deslanchar e logo a cidade onde morávamos, pela graça de Deus, começou a usá-la”, relembra.

A comunicação com filhos surdos é um desafio?

Como se dá a comunicação entre um filho surdo e um pai ouvinte? Robert Rangel comenta que a comunicação que teve com seu filho à medida que foi crescendo não foi tão difícil, pois ele é surdo também, mas que hoje em dia usa aparelho auditivo. Devido a surdez que apresenta, ficou mais fácil para ele identificar o problema que seu filho tinha. 

A maneira em que ambos se comunicam é de forma oral e mediante a LIBRAS. “Como somos de uma surdez severa(pai) e moderada (filho) nos comunicamos muito bem”, diz Rangel. 

A Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) é a língua usada pelas pessoas surdas no Brasil e lhes ajuda a poder se comunicar tanto entre eles mesmos, como com pessoas ouvintes.

Rangel menciona que como ele tem conhecimento em LIBRAS, foi mais acessível para que pudesse ensinar ao seu filho. No entanto, “tem muito mais por explorar ainda”, diz.

Por outro lado, de acordo com o artigo “Pais ouvintes e filhos surdos: o lugar das famílias nas propostas educacionais bilíngues”, as crianças nascidas em um lar sem conhecimento da LIBRAS “enfrentam dificuldades de relacionamento com os familiares se não houver oportunidade de apropriação da Língua de Sinais no tempo certo, o que interfere negativamente no seu desenvolvimento linguístico e educacional”.

Dificuldades de crescer como uma pessoa surda

Ser surdo não impede as pessoas de se desenvolverem em diferentes áreas da vida à medida que crescem. No entanto, pode ser mais difícil do que para uma pessoa que ouve.

Juliana Almeida, sobrinha de Lia, conta que era muito difícil para ela fazer amigos e que era frequentemente rejeitada pela sociedade ouvinte devido à sua surdez. Diz que o fato de ter crescido num ambiente com pessoas ouvintes a ajudou a ser capaz de ler os lábios. No entanto, algumas pessoas não têm uma boa articulação labial e ela ainda está a adaptar-se a isso.

Por outro lado, Rangel afirma que não se preocupa com o crescimento e o desenvolvimento do seu filho porque já passou por este processo desde criança, mas conhece os desafios, pelo que é sempre melhor prevenir.

Almeida admite que, em todos os aspectos da sua vida até agora, tem tido dificuldades. “A maioria dos lugares não tem acessibilidade para pessoas surdas”, diz ela. “Lugares como igrejas, hospitais, lojas, bancos, entre outros, não têm intérpretes ou os que têm só sabem o básico de LIBRAS”, finaliza.

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