Questões sociais e culturais por trás da transição capilar

In Cultura, Geral

O processo traz muitas dificuldades e está cada vez mais presente. 

Lana Bianchessi

Entrar no mercado, na farmácia ou no catálogo da revista e notar os diversos tipos de produtos voltados aos cabelos cacheados e crespos, mostra o enorme avanço da indústria de cosméticos capilares, com alterações de fórmulas com o foco não só em cabelos lisos. Esse recém crescimento também reflete na enorme demanda de pessoas que procuram aceitar o próprio cabelo natural, seja ele cacheado ou crespo.

Transição Capilar

Nesse desejo de voltar ao cabelo natural, surge a transição capilar, que é o processo de abandono de químicas de alisamento e relaxamento, com o objetivo de retornar ao cabelo com a sua curvatura natural. Isso pode ocorrer de várias maneiras, com cortes, penteados e acessórios. 

As técnicas mais comuns são:

  • Big Chop: quando é cortada toda a parte alisada do cabelo de uma só vez, no início do processo de transição capilar;
  • Cortes regulares: cortar as pontinhas e eliminar aos poucos toda a parte alisada;
  • Técnicas de texturização capilar: um conjunto de técnicas para moldar os fios, mudando o seu formato sem o uso de químicas e assim, reduzindo o contraste na aparência entre os fios lisos e os naturais;
  • Fitagem: consiste em separar o cabelo pré-lavado e úmido em mechas, aplicar o seu creme para pentear e passar os dedos em um movimento preciso na mecha, indo da raiz até as pontas e separando-a em fitas;
  • Dedoliss: uma forma de enrolar o cabelo e formar cachos usando apenas os dedos;
  • O Twist: variação do dedoliss. Significa separar o cabelo em pequenas mechas, dividir cada mecha em duas partes e torcê-las;
  • Tranças: as mais usadas são as box braids, que são tranças finas, feitas desde a raiz, que unem no trançado o cabelo natural e fibras sintéticas.

A pessoa que escolhe passar por algum destes métodos precisa ter muita determinação, paciência e apoio. A trancista Gabriela Araújo Gomes atua nesta área importante para a autoestima dos que passam pela transição. Ela e sua irmã Gisela Araújo Gomes têm o próprio salão de beleza, no qual as duas se empenham para aumentar a autoestima dos clientes e lembrá-los da própria identidade. 

“Todos os clientes que passam pela transição têm esse dilema: faço ou não faço? Será que eu vou me sentir mal? Será que eu vou me sentir feia? Será que eu não vou me encontrar com meu próprio cabelo? Será que eu vou me arrepender?”, ela conta sobre suas experiências nesse meio profissional de trançamento. 

Preferir o liso

Com toda essa dificuldade emotiva do processo, a maioria das mulheres já opta por fazer um procedimento para buscar o relaxamento do cabelo natural para o mais próximo do liso. Uma pesquisa da L’Oréal revelou que das 56% das mulheres brasileiras que têm cabelo cacheado ou crespo, 63% desejam ter cabelo liso. Alguns motivos que podem explicar o por quê dessa preferência são: 

  • É mais fácil de cuidar, com produtos mais baratos e acessíveis para cabelos lisos, sem precisar finalizar ou hidratar com frequência. 
  • Problemas com a autoestima, pelo padrão estético ser voltado a mulheres com cabelos lisos. 
  • Não sofrer bullying, por conta de pessoas que consideram cabelos cacheados ou crespos como “ruins”. 
  • Por pressão social, até mesmo com familiares que também estão inseridos nessa ideia de que cabelo liso é melhor.

“É um cabelo que dá trabalho, tem dias que estou indisposta para pentear e cuidar. Hoje em dia eu tenho mais confiança de ser quem eu sou, mas ainda com medo do que a sociedade vai achar, porque é um cabelo que tem que estar sempre nos padrões de cabelo cacheado”, diz Maria Clara Correia Soares, de 21 anos, que alisava o cabelo desde criança e passou pela transição capilar duas vezes. 

A trancista Gabriela também conta sobre situações vividas por ela e sua irmã. “Antigamente a nossa mãe fazia tudo para o nosso cabelo estar sempre baixinho igual as outras amiguinhas de cabelo liso, pra gente não se sentir inferior e não sermos motivo de chacota. A gente passava por muitos constrangimentos por conta do cabelo”, desabafa.

As trancistas Gabriela e Gisela no antigo espaço de beleza. [Foto: Gabriela Araújo Gomes]

A identidade de um povo

O cabelo sempre foi uma das partes do corpo que recebeu grande atenção por parte das pessoas. É responsável pela composição do visual de cada indivíduo, realçando, reforçando ou minimizando os traços fenotípicos, ou seja, os traços que determinam a aparência do indivíduo, que em sua maioria são aspectos visíveis. Mas não só isso, o cabelo carrega um traço do passado, justamente por fazer parte da identificação de uma comunidade.

Segundo o artigo escrito por Nilma Lino Gomes, Corpo e Cabelo Como Símbolos da Identidade Negra, “o cabelo crespo e o corpo negro podem ser considerados expressões e suportes simbólicos da identidade negra no Brasil. Juntos, eles possibilitam a construção social, cultural, política e ideológica de uma expressão criada no seio da comunidade negra: a beleza negra”. 

“O cabelo é a nossa história, a história do negro escravo de senzalas e de outros povos em outros lugares. Antes de ser moda, é história. Primeiro de tudo, é uma identidade, é o que a gente é. E saber que o nosso cabelo é lindo e que nós temos a opção de usar o nosso cabelo natural solto mesmo ou tranças e penteados que são próprios do nosso povo é magnífico”, conta a trancista.

Ela ainda complementa que toda transição tem suas partes tristes e difíceis. “Mas isso muda a nossa atitude, a nossa forma de ver a vida. Nós começamos a nos ver e saber quem nós somos”, destaca Gabriela. 

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