A ditadura da felicidade: o que é? Quais são seus impactos?

In Cultura, Geral

Psicólogos falam sobre a importância de se sentir mal para se sentir bem.

Natália Goes

Um psicólogo espanhol David Salinas, cansado da imposição social de ter que sempre estar feliz, em um momento de céu nublado, teve a ideia de escrever o livro La Dictadura de la Felicidad (A ditadura da felicidade). Ele cita: “estou triste… e me alegro com isso!”

A ditadura da felicidade prega que a felicidade está à nossa frente e ao alcance de todos, e quem não está feliz ou não demonstra felicidade é visto como uma pessoa derrotada. As pessoas são obrigadas a fingir que estão bem o tempo todo, mesmo quando estão passando por momentos difíceis apenas para escapar do policiamento. Outras que não têm o espírito bem-humorado sentem-se inadequadas no modelo imposto pela sociedade atual.

Em entrevista para a BBC News Mundo, Salinas analisa e aborda os principais mitos sobre a ideia da felicidade de acordo com suas experiências profissionais em seu consultório em Málaga, na Espanha. Para ele, a ditadura da felicidade é uma imposição social, que virou um negócio em que as pessoas precisam estar sempre bem. “Cada um pode entender a ditadura da felicidade como algo distinto. Eu entendo como uma”, afirma.

Apesar do autor falar sobre “se alegrar por estar triste”, ou estar satisfeito por não ter uma vida como gostaria. Ele alerta que o livro não segue por esse viés, a crítica se dá pela “imposição” de ter que “ser feliz” a todo custo em meio a uma indústria da felicidade, imposição sociocultural. “Não se trata apenas de precisar estar sempre bem, mas de precisar estar sempre procurando a felicidade”, critica o psicólogo.

Salinas declara que essa busca cresce com a enxurrada de livros de autoajuda, com receitas prontas para alcançar esse suposto bem-estar permanente. “Estamos cansados de mensagens positivas, da literatura que diz o que você precisa fazer para se sentir feliz. E o que conseguimos com isso é fazer com que as pessoas concentrem demais o foco em si mesmas e na busca do seu bem-estar”, afirma.

O impacto da ditadura da felicidade

A constante mudança da sociedade cria diversos padrões que vêm sendo alimentados pelas mídias e pelos ideais das pessoas. A psicóloga Larissa Aragão diz que “as pessoas têm medo de ser vulneráveis! Até porque é exatamente aí onde o lado mais difícil da internet ganha força, no que é vulnerável”. 

Com a ditadura da felicidade não é diferente, a chegada das mídias sociais e do acúmulo de vida perfeita nos feeds dos celulares não dá para deixar de sorrir. “O sujeito começa a “engolir” sentimentos que não são aceitos pelos outros e assim acaba acumulando sensações, pensamentos e desejos dentro de si, o que pode ocasionar transtornos como ansiedade, síndrome de Pânico, depressão e outras questões que afetam diretamente a vida diária do sujeito”, afirma a psicóloga.

As dicas para não cair na ditadura da felicidade vão desde perceber a si mesmo como uma vítima desse processo e logo procurar ajuda de um profissional qualificado para o tratamento das consequências, até lembrar dos sentimentos e de como acolhê-los, vivenciá-los e expressá-los. “Por que tenho que viver 100% feliz? Talvez eu precise entender de onde vem isso tudo e assim sentir outros tipos de sensações que englobam o meu viver”, indica Larissa. 

A ditadura da felicidade pode atingir qualquer pessoa, principalmente as crianças. Vale pensar no simpático filme Divertidamente da Pixar, em que a personagem principal é a alegria. Nele mostra o amadurecimento de uma menininha, apresentando as emoções que habitam as pessoas: a alegria, a raiva, o nojo, o medo e a tristeza. 

Com o passar do filme, fica claro que, à medida que a personagem cresce, os sentimentos ficam mais complexos. A psicóloga faz o alerta dizendo: “nós adultos temos o papel de colocar a criança para refletir sobre a existência de outros sentimentos e como eles juntos causam um impacto positivo sobre a menina.”

Assim, ficar triste não é completamente ruim, mas é um processo importante para amadurecer, se conhecer melhor e até acessar momentos alegres depois. A vida, afinal, é feita de complexidades, e ensinar isso às crianças desde o início da vida pode ser uma boa maneira de fortalecê-las para os desafios do futuro. “Somos o caminho para que essa criança entenda e comece a construir suas ideias e opiniões e então é auxiliando nos questionamentos que podemos trabalhar com elas uma melhor visão sobre felicidade”, afirma Aragão.

Assim como no filme, o livro O lado bom do lado ruim: Como a ciência ensina a usar a tristeza, o medo, a raiva e outras emoções negativas a seu favor, o autor Daniel Martins também fala sobre o assunto. Nele o psiquiatra mostra que as emoções desagradáveis não são sons incômodos que devem ser silenciados. Em vez disso, são alertas preciosos que nos chamam atenção para algo mais profundo que não vai bem na nossa vida.

A busca da felicidade nas redes sociais

Basta alguns segundos navegando nas redes sociais para notar os efeitos ditatoriais da busca pela felicidade que se estendem para as redes sociais. A digital influencer Lara D’ávila fala sobre a artificialidade do meio do influencers, como um meio que pode gerar ansiedade por não conseguir atingir estados mentais e metas internas podendo deixar as pessoas ainda mais infelizes pela frustração. 

Apesar de não ser o conteúdo principal de suas redes sociais, ela diz que não julga a motivação, por não conhecer a intenção de quem escolheu essa vertente de conteúdo. “Pode ser muito importante e eficiente para muitas pessoas que precisam de apoio em momentos difíceis e recebem mensagens lindas e positivas para se inspirarem a seguir adiante e superar as adversidades que a vida nos impõe todos os dias”, acredita.

Mesmo em meio a um ambiente em que a felicidade é extremamente mostrada e buscada, Lara tenta se adaptar. “Dar conta de ser eu mesma, estar conectada interiormente sempre, ou pelo menos o máximo de tempo possível”, confessa que precisa fazer para não entrar na ditadura da felicidade.

Na construção do equilíbrio entre falar sobre felicidade em algo real e não idealista ou até mesmo egoísta, a influencer expõe sua vida real, erros, acertos, superações, o que viveu numa experiência direta que gerou uma realização que merece ser compartilhada. “Sigo meu caminho incluindo minhas necessidades pra estar bem olhando pro lado e tentando oferecer ao outro o que está ao meu alcance”, finaliza.

Ditadura da felicidade faz parte das redes sociais.
Redes sociais fazem parte da ditadura da felicidade.

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