Educação na terceira idade: a luta pelo diploma enfrentada por muitos

In Educação, Geral

Taxa de pessoas que entram na faculdade durante a terceira idade aumenta a cada ano.

Camilly Inacio 

Aprender o que não foi possível durante a juventude, construir uma nova carreira, desenvolver novas habilidades, buscar outra fonte de renda, encontrar uma nova formação para permanecer no mercado de trabalho ou apenas estimular a mente. Esses são alguns dos diversos motivos que levam pessoas a ingressar em uma faculdade ou supletivo, mesmo depois da terceira idade. 

Conforme os dados de uma edição do Mapa do Ensino Superior lançada em 2021, existem quase 198 mil idosos matriculados em cursos superiores, o equivalente a 2,3% dos 37,7 milhões de idosos registrados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Segundo dados do Censo de Educação Superior, existem mais de 27 mil idosos cursando o Ensino Superior no Brasil. Essa faixa etária é a que mais cresceu nas faculdades brasileiras entre 2015 e 2019. Enquanto a matrícula entre as pessoas com até 59 anos cresceu apenas 7%, a terceira idade teve um aumento de 48% nas matrículas.

A idade não impede a conquista

Aos 57 anos, logo após perder sua mãe e dar início ao processo de aposentadoria, visando tirar a mente do luto, Maria do Socorro Gomes decidiu iniciar o curso de Pedagogia. Atualmente tem 60 anos e acabou de se formar.

Ela já havia sido professora primária, mas não possuía formação no Ensino Superior. Chegou a iniciar o curso de Administração, mas diz que se sentiu muito sobrecarregada, e acabou desistindo. 

“A experiência de retomar meus estudos nessa fase foi um passo muito acertado, pois com o número de atividades a realizar, logo percebi que minha depressão com a perda da minha mãe havia sido minimizada”, expõe Maria do Socorro.

Além disso, ela pôde voltar a dar aulas e observa: “obtive muitos conhecimentos na área do ensino-aprendizagem que me motivam a continuar atuando dentro desse universo pedagógico”.

Obstáculos no percurso

No entanto, muitas dificuldades são encaradas no meio desse processo. Entre elas está o etarismo, que se caracteriza como o preconceito e discriminação contra uma pessoa devido à sua idade. Segundo o relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS), uma em cada duas pessoas no mundo já emitiu falas etaristas, intencionalmente ou não. 

Recentemente um vídeo de três jovens estudantes viralizou na internet e acabou virando notícia. No vídeo, as meninas estão “debochando” de uma aluna da mesma turma, com 40 anos. Uma das estudantes ironiza: “gente, quiz do dia: como ‘desmatricula’ um colega de sala?”. Outra diz: “Mano, ela tem 40 anos já. Era para estar aposentada”. 

É natural a indignação que surge ao assistir o vídeo, mas, infelizmente, essa é uma realidade enfrentada por muitos que decidem estudar com uma idade mais avançada. Maria do Socorro, ao falar sobre as dificuldades enfrentadas no processo, destaca que “foi um grande desafio superar o preconceito ‘velado’ de alguns dos jovens colegas acerca da capacidade intelectual das pessoas maduras.”

Além disso, adaptar-se às novas tecnologias também pode ser uma fonte de discriminação que pode abalar a saúde mental dos idosos. Maria observa que entre os desafios, o maior foi superar a dificuldade com a tecnologia. “Foi preciso muita paciência, tempo e resiliência para conseguir aprender”, confessa.

Benefícios da educação na terceira idade

Todavia, embora a experiência dos idosos no Ensino superior tenha dificuldades, existem muitos benefícios, que por vezes superam os obstáculos. Sabemos que a educação é tão importante quanto necessária em qualquer fase da vida dos seres humanos. 

No entanto, o envelhecimento pode trazer algumas consequências para a mente, como a diminuição das células nervosas no cérebro, dependendo de como essa mente é exercitada. 

Por isso, apesar das dificuldades, procurar os estudos mesmo com a idade avançada é uma forma de cuidar da mente, permitindo que a mente e o corpo continuem em desenvolvimento para estimular o cérebro, prevenindo doenças. 

Além disso, o estudo permite melhorar a socialização do idoso, aumentar a autoestima, promover independência, desenvolver novas habilidades, aumentar os conhecimentos e dar um novo sentido e mais motivação à vida. 

Resultado do esforço

Katie Paulino, formada em Pedagogia e pós-graduada em psicopedagogia clínica, foi professora no Educação de Jovens e Adultos (EJA), popularmente conhecido como supletivo. Esse programa de estudos permite que pessoas que não completaram, abandonaram ou não tiveram acesso à educação formal na idade apropriada, concluam o Ensino Médio.  

“Os alunos se sentem felizes, fazem amigos, se sentem menos ansiosos e mais motivados a ler, além de muitos ingressarem no Ensino Superior após a conclusão”, explica Katie.

Ela relata que “é comum os alunos mais velhos terem dificuldades, mas normalmente demonstram um interesse tão grande que os professores se sentem muito felizes em ter a oportunidade de dar aulas para eles”.

Direito assegurado pelo Estatuto do Idoso

Além de todos os benefícios e dificuldades, a educação na terceira idade é também um direito que está garantido dentro do Estatuto do Idoso, conhecido como a principal lei voltada para a população idosa, a Lei 10741. 

Dentro do estatuto, existe um capítulo que, entre outros assuntos, fala sobre a educação. O trecho menciona que o direito de acessar o Ensino Superior é garantido aos idosos, significando que as faculdades e instituições têm a necessidade de estar aptas a receber alunos da terceira idade. 

Sendo assim, amparados pela lei e com a ajuda dos professores, colegas e familiares, o sonho de conseguir um diploma não estará limitado aos preconceitos, dificuldades, ou mesmo pela idade.

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