Geração sanduíche: a vida de quem cuida dos filhos e pais simultaneamente

In Cultura, Geral

Conheça as dificuldades de pessoas que fazem parte desta faixa etária.

Cristina Levano

Chega um momento na vida no qual quem em algum momento foi cuidado se torna cuidador. Às vezes, cuida-se dos filhos, pais ou parentes que ao envelhecer precisam ter um atendimento especial. Entre este grupo de cuidadores, existe uma faixa etária especial denominada “geração sanduíche”, que é composta por adultos que, enquanto criam seus filhos, também cuidam de outros adultos ao mesmo tempo. 

“Antigamente as relações entre mais de duas gerações eram incomuns e pouco duradouras, devido a alta mortalidade que impedia que as gerações coexistissem o tempo suficiente para existência desse cenário,” afirma Simone Wajnman em seu artigo “Geração sanduíche no Brasil: realidade ou mito?“. 

Outro elemento que explica a existência da “geração sanduiche” é que, com o decorrer do tempo, mais pessoas preferem formar uma família tardiamente, fazendo com que o grupo de pessoas de dupla responsabilidade aumente.

Por que geração sanduíche?

Em um artigo publicado em 1981 a assistente social Dorothy Miller utilizou pela primeira vez o termo “geração sanduíche” para se referir a mulheres entre 30 e 40 anos que se sentiam presas entre cuidados dos filhos e seus pais idosos.

Assim como o queijo entre duas fatias de pão, os membros da geração sanduíche frequentemente se encontram presos em uma teia delicada de compromissos e demandas. Pais mais velhos podem precisar de assistência especial em relação às necessidades de saúde, decisões financeiras e atividades cotidianas, enquanto a educação, bem-estar emocional e aspirações futuras na criação de seus filhos também exigem atenção.

Essa interação complexa de responsabilidades pode levar a um estresse aumentado e fadiga emocional. Esse “malabarismo” constante de necessidades testa até mesmo os indivíduos mais estáveis emocionalmente.

Uma situação difícil

Luciana Rabe, mãe de duas crianças,  já cuidava da sua mãe de longe. No entanto, durante a pandemia, elas moraram juntas por um ano e meio devido a uma doença da mãe.

Durante esse tempo, Luciana relata que a situação era difícil. A família mora fora de seu país de origem, e a mãe não conseguia se comunicar na língua local. Por conta disso, Luciana precisava estar presente em todas as consultas, internações e demais comunicações com a mãe, a fim de traduzir as informações.

“Ficou uma situação bem complicada. Por ser a única filha, a responsabilidade caiu toda pra cima de mim. Me senti bem estressada, perdida e sobrecarregada.”, desabafa.

De acordo com a psicóloga María Belén Eseverri o desafio emocional e psicológico que este grupo de pessoas apresenta está relacionado ao estresse, devido à sobrecarga de tarefas, a busca pelo manejo adequado das demandas e os níveis de dependência das crianças e idosos.

“Essa dupla responsabilidade pode afetar claramente a estabilidade emocional de uma pessoa. Pode gerar níveis excessivos de angústia e desconexão afetiva, sentimentos de fracasso e culpa, o que pode causar deterioração na atividade laboral ou até Síndrome de Burnout, assim como pode chegar a afetar o vínculo com o parceiro, filhos e pais,” explica.

Os membros da geração sanduiche, em alguns casos tem manifestações de estresse, angústia e, ao mesmo tempo, manifestações distímicas, como apatia, falta de desejo ou motivação. Angústia relacionada a questões não resolvidas em casa, filhos, idosos e casal. E, da mesma forma, a desconexão afetiva, para poder regular os altos níveis de exigência e sobrecarga, como distimia, inibição e bloqueio da angústia.

Rosangela Marcondes, influenciadora digital de 67 anos, cuida de sua mãe junto aos seus irmãos. Ela também descreve a situação como “difícil”, mas necessária e importante. 

“Sentimos culpa quando não estamos 100% presentes com eles. Sentimos raiva de nós mesmos e deles, porque não queremos trocar fralda, não temos força suficiente para levantá-los e movimentá-los de um lugar para o outro. Então, esse lugar de geração sanduíche é um lugar que precisa ser pensado não só como um olhar social, mas individual. Afinal, os pais envelhecem, e a gente envelhece junto,” reflete Rosangela.

Trabalho em equipe

Cuidar da saúde tanto mental como física em situações de dupla responsabilidade é vital para o bem-estar familiar. Maria Eseverri explica que a chave para que cada cuidador tenha uma boa saúde mental é reconhecer até que ponto consegue assumir o controle da situação, assim como definir estratégias reais e não idealizadas. 

“O primeiro passo é encarar a situação de forma familiar. Em seguida, distribua as tarefas de forma assertiva e igualitária. Da mesma maneira, é importante um acompanhamento terapêutico, seja individual ou familiar, e aceitar ajuda externa”, declara a psicóloga Eseverri.

Além disso, o diálogo entre todas as partes envolvidas é fundamental, para todos saberem que estão na mesma situação e a forma mais saudável de lidar com isso é por meio de comunicações claras e honestas. Para aliviar as demandas, é importante solicitar a colaboração de cada membro da família na medida de suas possibilidades, reconhecendo que cada um tem sua maneira de contribuir. 

“Por exemplo, as crianças, dependendo da sua idade e capacidade, podem ajudar nas tarefas domésticas, ajudar outras crianças nas tarefas escolares, acompanhar os avós, se puderem, em qualquer procedimento ou tarefa. No caso dos idosos, que poderiam supervisionar os filhos em casa, buscá-los na escola, fazer algumas tarefas domésticas, entre outras coisas”, finaliza a psicóloga.

Da mesma maneira, os empregadores podem desempenhar um papel importante oferecendo arranjos de trabalho flexíveis, como trabalho remoto ou horários ajustados, para conseguir acomodar as demandas de cuidado. É necessário manter conversas abertas sobre esses desafios. Isso pode ajudar a reduzir o estigma e o isolamento que frequentemente acompanham as responsabilidades de cuidado.

O amor é mais forte que as dificuldades

No entanto, em meio a esses desafios, os cuidadores também demonstram uma força e resiliência diferentes. Eles são hábeis em fazer várias tarefas, resolver problemas e tomar decisões com mais rapidez.

A maior recompensa que recebem, como disse Luciana Rabe, “está na alegria de ver minha mãe ter mais convivência com meus filhos e de saber que ela estava bem cuidada e protegida”. A posição única da Geração Sanduíche oferece uma oportunidade para a criação de vínculos intergeracionais, promovendo empatia e compreensão entre diferentes faixas etárias.

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