Mulheres participam de festival japonês pela primeira vez na história

In Cultura, Geral

O Festival do Nu ainda conta com diferenças discrepantes entre a participação de homens e mulheres; Japão está em 125º lugar no ranking mundial de Igualdade de Gênero.

Paula Orling

Pela primeira vez em 1.250 anos de história da tradição, as mulheres participaram do Hadaka Matsuri. Em português, o evento japonês é conhecido como “Festival do Nu”. O evento acontece todos os anos no terceiro sábado de fevereiro, organizado com base no calendário lunar. A sede do festival é o Santuário Konomiya, no coração do Japão e, lá, milhares de homens vestindo pouco mais de uma tanga (fundoshi) em pleno inverno asiático se acotovelam para participar da programação que promete afastar os espíritos malignos.

O grande momento do festival é tocar o “Shin Otoko”, um homem escolhido por cada templo local dias antes e que passa por rituais de preparação. Além disso, durante as festividades, os homens lutam por bastões considerados sagrados, os “shingi”. A tradição é de que quem tiver a posse do bastão terá sorte e prosperidade ao longo daquele ano lunar.

Especula-se que o “Festival do Nu” recebeu cerca de 10.000 homens nesta edição e o número de mulheres não foi efetivamente contabilizado. A tradição vem do Xintoísmo, religião nativa do Japão.

Participação masculina

Jason von Baiden é estadunidense e mora há sete anos na província de Okayama, onde ensina inglês na Okayama University of Science. Nesta província japonesa o Hadaka Matsuri é bastante popular e Jason participou da festividade em 2019, quando as mulheres eram excluídas do evento. Ele conta que a parte mais impactante foi o ritual de orações que acontece antes do evento, que pode participar ao ser convidado por um colega de trabalho.

Ele explica que “duas vezes por dia, um pequeno grupo de jovens locais, monges budistas e monges em treinamento realizam uma cerimônia chamada ‘Mizugori’ para rezar pela segurança”.  No pátio do templo, chamado de Saidaiji, existe um tanque, em que os fiéis mergulham vestindo o Fundoshi, enquanto recitam uma oração. Após essa experiência, eles entram no templo para rezar perto do altar.

Ele destaca o senso de humildade que sentiu ao participar do Hadaka Matsuri e questiona como as tradições religiosas, com foco no Budismo, são pouco populares entre a maioria dos japoneses nos dias atuais.

Sua preocupação se volta para as pessoas que se machucam ao tentar se aproximar do Shingi, o homem escolhido. Mesmo assim, defende: “todos estão repetindo a frase ‘washoi!’ […], que significa algo como “vamos lá!”. Se alguém cair, os outros homens ao redor fazem de tudo para ajudá-lo a levantar. Assim, você sente que trabalhou junto para realizar algo até o final, mesmo que não tenha ‘ganhado’ o amuleto sagrado.”

Representação feminina

Ao ser questionado publicamente sobre a participação feminina no evento, o sacerdote Naruhito Tsunoda explica que nunca houve uma proibição legal que impedisse as mulheres de participar do Hadaka Matsuri. Ele assume, contudo, que sempre existiu uma pressão social e ideológica sobre a inclusão feminina em festivais tradicionalmente masculinos.

Ruby Nyan é japonesa e sempre gostou do festival. Assim como outras mulheres, ela já participava como espectadora. Ela conta que ainda não teve a chance de participar da festa. As vagas abertas para as mulheres foram tão requisitadas que esgotaram antes que tivesse chance de se inscrever.

Por outro lado, a francesa Julie Baud conseguiu participar. Hoje ela mora e trabalha em Nagoya, no Japão. Ela, que une artes e turismo em seu trabalho, passou quase 10 anos apoiando homens a participar. Quando viu a notícia de que poderia fazer parte do festival, entrou em contato com várias mulheres até encontrar uma líder de grupo feminino para o evento.

Julie compartilha que pode sentir orgulho das outras mulheres ao seu redor, “que também estiveram buscando por tanto tempo a oportunidade de trazer suas próprias preces e esperanças ao santuário, diretamente aos deuses, sem precisar depender dos homens de suas famílias.”

Diferença de homens e mulheres na participação 

Mesmo nessa edição em que as mulheres participaram, as diferenças entre os gêneros foram discrepantes. Enquanto os homens participavam vestidos com o fudoushiI, as mulheres vestiram túnicas longas roxas. Além disso, elas carregaram as próprias oferendas de bambu, prezando pela boa sorte, mas apenas homens puderam tocar o Shin Otoko.

Samantha Simões é de família portuguesa, nascida nos EUA, e mora há cinco anos no Japão. Ela comenta em suas redes sociais que sempre teve o desejo de estar mais envolvida com as tradições locais. Entretanto, nem sempre teve esta oportunidade por causa do preconceito por parte dos homens, e mesmo de algumas mulheres, em relação à sua participação na festa. 

Em 2024 (no calendário ocidental), existiu participação de mulheres em alguns lugares. Onde Samantha estava, contudo, as mulheres não foram autorizadas a participar. Apesar de não fazer parte da cerimônia, ficou feliz por assistir à programação. 

O Instituto Cultural Nipo Brasileiro de Campinas explica que o evento é provincial e, portanto, cada região tem tradições próprias e é difícil detectar a origem da festividade.

Igualdade de gênero no Japão

A participação das mulheres no Hadaka Matsuri representa uma evolução para a sociedade japonesa. O Japão se encontra na 125ª posição no ranking de Igualdade de Gênero do Fórum Econômico Mundial. 

As considerações a respeito da igualdade de gênero são recentes no país. A Embaixada do Japão no Brasil esclarece que, em 1999, o governo japonês sancionou a Lei Básica para uma Sociedade com Igualdade de Gênero. 

“Os cinco princípios básicos abrangidos por essa lei são: respeito aos direitos humanos de homens e mulheres, consideração aos sistemas ou práticas sociais, participação conjunta no planejamento e formulação de políticas, compatibilidade entre as atividades no âmbito familiar e em outras atividades, e cooperação internacional”, descreve a regulamentação.

Estabelecer igualdade de gênero depende de um processo demorado de mudança da mentalidade de toda a população, mas os resultados já são notáveis. Ainda de acordo com a embaixada, o número de mulheres empregadas em todos os tipos de indústria no Japão cresceu 16,2% de 1975 a 2012. Elas encontraram trabalho “especialmente nas indústrias de serviços e alimentos, lojas de atacado e varejo, e manufaturas de equipamentos elétricos.”

Crédito fotos: Spice! Danse Team

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