Presenteísmo: o que é e quais são as causas?

In Cultura, Geral, Saúde

Estar presente no trabalho é mais importante que a produtividade?

Natália Goes

Não muito distante está da nossa realidade passar pelo menos 40 horas trabalhando semanalmente em escritórios físicos, e muitas vezes até mais, somente para impressionar o chefe.

No mercado de trabalho pré-pandemia esse presenteísmo, estar presente sentado no escritório para parecer dedicado não importando a produtividade, era comum nas rotinas de escritórios.

No Reino Unido, uma pesquisa feita antes da pandemia demonstrou que 80% dos profissionais disseram que o presenteísmo existia no local de trabalho e um quarto dos entrevistados afirmou que havia piorado desde 2020.

Com o trabalho remoto, chefes e funcionários têm a chance de finalmente reavaliar o presenteísmo tão arraigado. Mas apesar da oportunidade de abandonar a prática em meio a um novo ambiente de trabalho, o presenteísmo ainda está bem vivo.

Agora, o presenteísmo se tornou digital. As pessoas trabalham mais do que nunca, respondendo constantemente e-mails e mensagens a qualquer hora do dia apenas para mostrar o quão “comprometidas” estão.

O que é presenteísmo?

O presenteísmo é o nome dado a uma condição caracterizada pela presença física de um trabalhador que não consegue se dedicar totalmente às suas tarefas. Ou seja, o corpo está ali, mas a mente não.

Segundo a psicóloga Mariana Costa, analista de desenvolvimento da Rede Primavera, o presenteísmo é apenas estar presente, mas a atenção estará em outro local. “O presenteísmo é de fato estar presente em seu ambiente de trabalho, mas a sua concentração e motivação não estão voltadas àquelas atividades dos trabalho”, afirma.

Causas do presenteísmo

As causas são diversas, desde problemas no ambiente de trabalho a problemas na vida pessoal do trabalhador. Na vida pessoal, o presenteísmo pode decorrer de questões familiares e de saúde, como ansiedade, depressão, insegurança, questões financeiras e outros.

As causas do presenteísmo podem ser diversas e é preciso estar atento. “As razões para o presenteísmo podem ser várias, como: estresse, falta de habilidade com o cargo/função; falta de reconhecimento e valorização trabalhista, e falta de envolvimento com a sua equipe de trabalho, o que te limita”, comenta Mariana.

Como identificá-lo?

Assim como qualquer disfunção na empresa precisa de atenção, essa não é diferente. Por ser uma condição que acontece lentamente, a percepção demanda tempo para monitorar o comportamento dos trabalhadores.

É importante monitorar e identificar os sinais para ajudar a diagnosticar as causas do problemas. “Como qualquer mal estar com questões subjetivas, é comum percebermos a ausência do autocuidado; a mudança de humor repentina; a queda da produtividade e o afastamento do envolvimento com as pessoas do seu convívio, principalmente no ambiente de trabalho”, alerta a psicóloga Mariana.

Aparências

Em 2020, uma pesquisa feita pela empresa de software de recursos humanos ADP descobriu que 54% dos trabalhadores britânicos se sentiam obrigados a ir presencialmente ao escritório em algum momento, mesmo durante a pandemia, principalmente aqueles que se encontravam no início e no meio de suas carreiras.

Em entrevista para a BBC, a professora Leigh Thompson de administração e organizações da Kellogg School of Business da Northwestern University dos EUA, disse que existem dois fenômenos psicológicos que alimentam o presenteísmo.

O primeiro é o “efeito de mera exposição”, que defende que quanto mais uma pessoa tem contato com outra pessoa ou com algo, mais ela começa a desenvolver uma afinidade com essa pessoa ou coisa.

O segundo é o conceito psicológico chamado “efeito halo”, que seria associar impressões positivas de alguém com seu caráter real. Essas duas atitudes podem levar a promoções ou a outros benefícios para os funcionários que comparecem pessoalmente.

Ironicamente, mesmo com as possíveis recompensas por estar presente no escritório, não necessariamente os trabalhadores são mais produtivos quando estão presencialmente ou fazem horas extras.

Durante a pandemia, o número de horas trabalhadas em todo o mundo aumentou. Em 2020, a jornada média diária de trabalho aumentou em mais de meia hora. O pensamento era que, se todo mundo está online, eu também tenho que estar.

Os colaboradores sabem que a chefia valoriza isso, por isso, caem na armadilha do presenteísmo, principalmente quando veem que seus colegas de trabalho estão fazendo o mesmo. 

Essa situação se potencializou em decorrência da pandemia de covid-19 que trouxe instabilidade econômica. Por isso, os trabalhadores, temendo pela continuidade de seus empregos, trabalham horas a mais para mostrar que podem suportar o estresse e se destacar, além de mostrar uma imagem confiável.

No entanto, na prática isso não funciona, visto que a qualidade da produção dos colaboradores é afetada por causa da necessidade de aparecer.

No Reino Unido, uma pesquisa mostrou que a produtividade caiu depois dos profissionais trabalharem mais de 50 horas por semana, sendo desperdiçado 35 dias de trabalho por ano devido ao presenteísmo.

Como evitar o presenteísmo?

A prevenção é uma das formas mais eficazes para lidar com o presenteísmo. “As empresas precisam ver o funcionário como um ser biopsicossocial, que passará o maior tempo do dia naquele ambiente de trabalho e colocará em prática suas experiências de vida, habilidades e competências técnicas”, confessa a psicóloga.

Em uma época que as práticas laborais estão em constantes mudanças, a necessidade de transformação é urgente para a redução na ênfase do presenteísmo, tanto fisicamente quanto digitalmente. 

Sobre isso, a psicóloga Mariana Costa deu dicas do que a empresa pode fazer. “Desenvolver programas de qualidade de vida, que oriente, por exemplo, a ter hábitos saudáveis; criar rotinas de feedback’s cuidadosos com plano de desenvolvimento individual do colaborador; ofertar grupos de apoio; investir em benefícios de assistência médica e psicológica; implementar treinamentos, incentivos e planos de reconhecimento profissional”, aconselha.

A relação entre a empresa e os colaboradores é uma via de mão dupla, assim como a chefia precisa estar atenta à prestação de serviço para alcançar os seus objetivos, também deve checar se os trabalhadores são valorizados no local de trabalho. O colaborador precisa também ter as habilidades necessárias para a prestação do serviço, além de adotar um modelo de comportamento mais saudável.

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